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publicado por Hercus Santos at 02:07 pm



Eu queria contar uma história resumida, sem pormenor, sobre esta imagem. Nela o que estamos a ver é um monte. Mas não é um monte qualquer. É um monte sagrado da minha família do lado paterno e materno. 

 

Os meus ancestrais vieram de Wehali e foram os primeiros homens a chegar a este monte. Eles eram dois irmãos. Vieram através do caminho do além, voando em cima de um animal sagrado, mágico (não é caminho terrestre mas caminho do mundo de além, do mundo invisível), e quando eles apareceram neste monte, as pessoas que os virem começaram por lhes chamar “Mosun ni na’in i laur ni na’in”. Isso quer dizer: “o senhor do aparecido e o senhor dos que brotaram da terra”.

 

Mas depois o irmão mais velho pensou que o seu irmão mais novo tinha ombros grandes, como os das vacas, peitos grandes, e peles como cabritos. Então enganou-o, mandou-ovoltar para Wehali e fez algo mágico para ele não poder voltar. Isto porque o irmão mais velho pensou que não poderia descer o monte para se encontrar com o povo se o seu irmão o acompanhasse, pois o povo poderia rir-se dele e não os querer aceitar como os seus líderes.

 

Foi assim que ficou só o irmão mais velho.

 

Mais tarde chegaram também os antepassados da minha mãe. Eram igualmente dois irmãos. A verdade é que os antepassados da minha mãe eram nativos das proximidades dessa zona, de uma localidade que se chama Hahilihun. Dizem que os pais desses dois antepassados nasceram de uma folha de uma plantação nesse sítio. Mas uma estrela pediu para que eles fossem para Wehali buscar uma catana sagrada.

 

Quando eles voltaram de Wehali encontraram que o antepassado do meu pai já estava a habitar nesse monte, chamado Aihahi. O Monte Aihahi, chamado Hoho Aihahi na minha língua ou, na língua de tétum, Foho Aihahi, também foi pretendido pelos antepassados da minha mãe.

 

Noutra zona, entre Aihahi e Hahilihun ainda há outro clã chamado Bubai cujos primeiros antepassados também nasceram da terra. Apareceram de dentro da terra e eram muito pequenitos. Bem pequenitos.

 

Então combinaram entre eles fazer algumas competições para verificar quem é que ia ficar com o monte. Todas as competições (eram três competições) foram ganhas pelo antepassado do meu pai. Mas certo dia o primeiro antepassado do meu pai morreu e quando os seus filhos se preparavam para o enterrar,  o seu corpo tremeu.  Era um sinal para não o enterrar. Segundo a crença do meu antepassado paterno, ele viera de uma hierarquia alta e, por isso, quando morreu devia o cadáver devia ser posto numa coisa alta. Então os seus filhos decidiram coloca-lo em cima de uma gondão/banyan tree nesse monte. Depois os antepassados da minha mãe viram o cadáver do primeiro antepassado do meu pai e perguntaram aos seus filhos:

 

 - “O que é que está lá em cima?”

- É o cadáver do nosso pai, responderam os filhos.

- “Por que foi posto lá em cima?”, perguntou o antepassado da minha mãe.

- “Segundo a nossa crença, nós viemos de cima e quando morremos o nosso cadáver deve ser posto, na altura”, responderam os filhos.

- “Pois, é verdade, mas isso é apenas a nossa crença, lisan. Na verdade é que o nosso corpo é da terra e para terra devemos voltar. Por isso devemos ser enterrados.” Aconselharam os antepassados da minha mãe.

- “Nós já tentamos isso, mas o corpo do nosso pai tremeu. Ele não queria ser enterrado”, responderam os filhos.

- “Tá bem. Nós temos ritos para o enterrar. Podemos ensinar a vocês mas em troca vocês devem-nos dar uma parte desse monte”, disseram os antepassados da minha mãe.

- “Sim, fica combinado”, concordaram os filhos.

 

Os antepassados da minha mãe ensinaram, com sucesso, os filhos do primeiro antepassado do meu pai a enterrar o cadáver do seu pai. O pai deles foi enterrado com lâminas de ouro, como, por tradição todos os descendentes que guardavam Ada Lelo, que literalmente se traduz “Casa Sagrada do Sol e Ada Ua”, ou seja, “Casa sagrada de bastão”, foram enterrados com lâminas de ouro. Uma nota devo aqui registar: somente o meu avô não foi enterrado com lâmina de ouro porque as lâminas de ouro foram perdidas no tempo da guerra e outras serviram para dote do casamento.  Algumas lâminas de ouro são sagradas e não podem tirar do seu lugar da casa sagrada. Como símbolo, ele foi enterrado com uma lâmina de bronze.

 

A partir daquele momento concordaram entre si que os antepassados da minha mãe ficariam como Liurai e os antepassados do meu pai continuavam como Dato. Mais tarde, séculos mais tarde, a casa sagrada do meu pai recebeu o bastão “Parlamento” (Dato Parlamento) e os antepassados da minha mãe receberam o bastão real (Liurai Manehi’ak). Os dois bastões ainda existem até agora.

 

Contudo, com essas competições alguém disser que havia conflitos entre a família do meu pai e a da minha mãe é puramente uma mentira. Não havia nem há conflitos. O que havia era simplesmente competição para decidir quem podia governar o reino como rei, pois não podiam existir dois reis no mesmo reino. Essa competição não se pode nunca confundir como conflito. Uma má interpretação. Sinceramente, eu já li algo errado que alguém falou e ou escreveu sobre a minha família paterno e materno, sobre mim e sobre outros familiares.

 

Como disse acima, os antepassados da minha mãe eram dois irmãos. O irmão mais velho chamava-se Liurai Maneka’olik e o mais novo chamava-se Liurai Manehi’ak.  Por isso é que denominaram as suas casas sagradas como Lulik Liurai Maneka’olik e Lulik Liurai Manehi’ak. As duas casas reais governavam o reino de Funar.  As duas casas sagradas eram e são casas reais de Funar até agora. Quem está a exercer o poder real é da? Liurai Maneka’olik. 

 

Quando os reis morriam faziam-se grandes cerimónias durante dias consecutivos e quando eram enterrados eram postas as lâminas de ouro e, em homenagem, eram levados o tambor, a bandeira e a trombeta. A partir de Dom José do Espírito Santo, o avô da minha mãe, da Casa Real de Uma Lulik Liurai Maneka’olik, governou o reino de Funar. Esta casa real Liurai Maneka’olik representa o poder real do reino de Funar como Liurai até agora.  Como casas reais, há estas duas casas sagradas - Uma Lulik Liurai Maneka’olik e Uma Lulik Liurai Manehi’ak. Mas o representante da casa real cabe ao Uma Lulik de Liurai Maneka’olik.

 

Depois o poder real passou da mão do avô materno da minha mãe - D. José do Espírito Santo - para o seu filho Aníbal do Espírito Santo, tio da minha mãe e padrinho do irmão mais velho do meu pai, para o meu padrinho, Domingos do Espírito Santo, e agora pertence a meu tio Porfírio do Espírito Santo.

 

Eu próprio vi, quando o tio da minha mãe - Aníbal do Espírito Santo - morreu ser enterrado acompanhado por morredores, tambor e trombeta e toda a população de Laklubar. Também se viram e ouviram o som dos tambores e trombetas. O meu padrinho morreu há pouco tempo e, como estou em Portugal, não assisti à cerimónia do ritual do enterro. Mas acredito que deve ter sido igual aos dos familiares anteriormente falecidos.

 

As gerações do lado paterno do meu pai continuam como Dato e as dos lados paterno e materno da minha mãe continuam como Liurai até agora.

 

As pessoas podem falar muito sobre as gerações reais de Funar mas o que certo é que o casamento entre a minha família paterna (Da Casa de Dato Bamatak) e materna (Da Casa Real-Liurai de Manehi'ak) aconteceu desde o tempo dos meus primeiros ancestrais e continua até agora. O casamento recíproca entre os familiares da minha família do lado paterno com os familiares da minha família do lado materno. Por isso os meus familiares do lado paterno e materno decidiram entre eles que quando há “lia”; cerimónia, ritual qualquer na família do meu pai, então a família do mau pai é como umane e a família da minha mãe é como fetosan. E quando há “lia “, cerimónia, ritual qualquer na família da minha mãe então a família da minha mãe é como umane e a família do meu pai é como fetosan.

 

Temos duas coisas sagradas que todas as casas sagradas pequenas dentro da minha casa sagrada (da casa sagrada do meu pai) as adoraram. Uma lámina de ouro sagrada que esses primeiros ancestrais a trouxeram e que ninguém podia ver nela. É muito proíbido ver nela. Só podemos tocar nela numa cerimónia muito e muito importante. Ela fica numa pasta feita da pele de um animal qualquer. A outra é a Bastão Parlamento que recebomos de Motain já, mais ou menos, no tempo do bisavô do meu bisevô paterno. 

 

 E relembro que tudo começou neste monte de Aihahi.

 

 

 A minha intenção de escrever este artigo é a seguinte:

- Dar a conhecer a história da minha família, os costumes e as tradições.

- Dei a conhecer também outro clã cujos antepassados nasceram da terra e que eram muito pequenitos: o clã de Bubai. Os antepassados das casas reais de Manehi’ak e Maneka’olik e também de Bubai foram os primeiros habitantes desta zona.

- Deixar uma dica para os arqueólogos que têm interesse em fazer investigação ou escavações arqueológicas. Porque os meus antepassados paternos e maternos quando morreram foram enterrados com lâminas de ouro, o que dá para apurar a data da sua estadia em Funar  e para conhecer os antepassados da casa real de Manehi’ak  e de Maneka’olik que nasceram de uma plantação que fica em Hahilihun, ou Hahilihun.

- É importante considerar que qualquer pesquisa sobre estas questões devem ser autorizadas pelos meus tios, anciãos das casas sagradas. Todas as actividades ficam dependentes da autorização deles.

- Ainda há muitos outros ritos, costumes e culturas interessantes para descobrir e para ser trabalhados por antropólogos e arqueólogos. 

- Eu escrevo este artigo inspirado na descoberta do homo floresiensis na ilha vizinha de Flores.


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