comentar
publicado por Hercus Santos at 11:39 am

 

Eu queria contar uma história resumida, sem por menor, sobre esta imagem. Nesta imagem o que estamos a ver é um monte. Mas não é um monte qualquer. É um monte sagrado da minha família do lado paterno e materno.

 

Os meus primeiros antepassados paternos vieram de Wehali e chegaram primeiro neste monte. Eles eram dois irmãos. Eles vieram para este monte através do caminho do alem, eles voaram em cima de um animal sagrado mágico (não é caminho terrestre mas caminho do mundo alem, do mundo invisível) e quando eles apareceram neste monte, as pessoas os virem e começaram por os chamar: Mosun ni na’in i laur ni na’in. Isso quer dizer: o senhor do aparecido e o senhor dos que brotaram da terra.

 

Mas depois o irmão mais velho pensou que o seu rimão mais novo tem ombros grandes como os das vacas, peitos grandes e tem peles como cabritos então o enganou e mandou voltar para Wehali e fez algo mágico para ele não puder voltar. Porque o irmão mais velho pensou que ele não pode descer encontrar com o povo com o seu irmão se não o povo possa rir-se dele e não queria aceitar eles como os seus líderes.

 

Então foi assim ficou só o seu irmão mais velho.

 

Depois chegaram também os antepassados da minha mãe também eram dois irmãos. A verdade é que os antepassados da minha mãe eram nativos perto dessa zona; numa localidade se chama Hahilihun. Dizem que os pais desses dois antepassados nasceram de uma folha de uma plantação nesse sítio. Mas com ajuda de uma estrela pediu para que eles fossem para Wehali buscar uma catana sagrada.

 

Quando eles voltaram de Wehali eles encontraram que o antepassado do meu pai já estava habitado nesse monte. O nome do monte é Aihahi. A Monte Aihahi ou na minha língua se chama Hoho Aihahi ou na língua de tétum se chama Foho Aihahi e os antepassados da minha mãe também queriam ficar nesse mesmo monte.

 

Noutra zona, entre Aihahi e Hahilihun ainda tem outro clã chamado Bubai que tem os seus primeiros antepassados também nasceram de terra; apareceram dentro da terra e eram muito pequenitos. Bem pequenitos.

 

Então combinaram entre eles para fazer algumas competições para verificar quem é que iam ficar com a monte. Todas as competições (eram três competições) foram ganhas por antepassado do meu pai. Mas certo dia o primeiro antepassado do meu pai morreu e quando os seus filhos decidiram para o enterrar,  o seu corpo tremeu.  Era uma sinal para não o enterrar. Porque segundo a crença do meu antepassado paterno, ele viesse de uma hierarquia alta e quando morreu devia pôr o cadáver numa coisa alta. Então os seus filhos decidiram para pôr em cima de uma gondão/banyan tree nesse monte. Mas depois os antepassados da minha mãe viram o cadáver do primeiro antepassado do meu pai e perguntaram aos seus filhos:

 

- “O que é que estava em cima?”

- É o cadáver do nosso pai. Responderam os filhos.

- “Porque pôr em cima?” Perguntou o antepassado da minha mãe.

- “Segundo a nossa crença nós viemos de cima e quando morremos o nosso cadáver devia pôr em cima, na altura”. Responderam os filhos.

- “Pois, isso é verdade. Mas isso é apenas a nossa crença, lisan. Mas a verdade é que o nosso corpo é da terra e para terra devemos voltar. Por isso devemos ser enterrados.” Aconselharam os antepassados da minha mãe.

- “Nós já tentamos isso mas o corpo do nosso pai tremeu. Ele não queria ser enterrado.” Responderam os filhos.

- “Tá bem. Nós temos ritos para o enterrar. Nós podemos dar mas em troco vocês devem-nos dar uma parte desse monte.” Disseram os antepassados da minha mãe.

- “Sim, fica combinado”. Os filhos concordaram.

 

Os antepassados da minha mãe ensinaram os filhos do primeiro antepassado do meu pai para enterrar o cadáver do seu pai e resultou. O pai deles foi enterrado com lâminas de ouro (por tradição todos descendentes, que guardavam Ada Lelo que literalmente se traduz Casa Sagrada do Sol e Ada Ua que literalmente se traduz casa sagrada de bastão, foram enterrados com laminas de ouro. Uma dica  Só o meu avô não foi enterrado com lamina de ouro porque algumas lâminas de ouro foram perdidas e outras para dote do casamento). Como símbolo ele foi enterrado com uma lâmina de bronze).

 

A partir daquele momento concordaram entre eles para que os antepassados da minha mãe ficaram como Liurai e os antepassados do meu pai continuavam como Dato. Mais tarde, séculos mais tarde, a casa sagrada do meu pai recebeu o bastão Parlamento (Dato Parlamento) e os antepassados da minha mãe recebeu bastão real(Liurai Manehi’ak). Os dois bastões ainda existem até agora.

 

Se alguém disser que havia conflictos a partir desse momento entre a família do meu pai e da minha mãe é puramente uma mentira. Não havia nem há conflictos. O que havia era competição para decidir quem podia governar o reino como rei. Porque não podia existir dois reis no mesmo reino. Essa competição não se pode nunca confundir como conflicto. Uma má interpretação. Sinceramente, eu já li algo errado que alguém falou e ou escreveu sobre a minha família paterno e materno, sobre mim e sobre outros familiares.

 

Os antepassados da minha mãe eram dois irmãos. Então o irmão mais velho se chama Liurai Maneka’olik e o seu irmão se chama Liurai Manehi’ak.  Dái é que denominaram as suas casas sagradas também. Uma Lulik Liurai Maneka’olik e Uma Lulik Liurai Manehi’ak. As duas casas reais governavam o reino de Funar.  As duas casas sagradas eram e são casas reais de Funar até agora. Mas quem estão a exercer o poder real é da Liurai Maneka’olik. 

 

Os reis quando morrem faziam grandes festas dias a dias e quando foram enterrados foram pôr as lâminas de ouro e foram levar pelos morredores, a bandeira, tambor e o trombeta. A partir de Dom José do Espírito Santo, o avô da minha mãe, de Uma Lulik Liurai Maneka’olik governou o reino de Funar e esta casa real Liurai Maneka’olik representa o poder real como Liurai até agora.  Como casas reais estas duas casas sagradas Uma Lulik Liurai Maneka’olik e Uma Lulik Liurai Manehi’ak. Mas o representante da casa real cabe ao Uma Lulik de Liurai Maneka’olik.

 

Depois o poder real passou da mão do avô materno da minha mãe D. José do Espírito Santo para o seu filho Aníbal do Espírito Santo ( o tio da minha mãe e o padrinho do irmão mais velho do meu pai) para o meu padrinho Domingos do Espírito Santo e agora para o meu tio Profírio do Espírito Santo.

 

Eu próprio vi quando o tio da minha mãe Aníbal do Espírito Santo quando morreu foi enterrado acompanhando com morredores, tambor e trombeta e toda a população de Laklubar também viram e ouviram o som dos tambores e trombetas. O meu padrinho morreu há pouco tempo e estou em Portugal então eu não assisti o cerimónia o ritual do enterro. Mas acredito que deve ser igual também.

 

As gerações do lado paterno do meu pai continuam como Dato e as dos lados paterno e materno da minha mãe continuam como Liurai até agora.

 

Tudo começou neste monte de Aihahi.

 

A minha intenção de escrever este artigo é seguinte:

- Dar a conhecer a minha história, costume e tradição.

- Como uma dica para os arqueólogos que têm interesse em fazer investigação ou escavações arqueológicas. Porque os meus antepassados paternos e maternos quando morreram eles foram enterrados com lâminas de ouro então dá para saber a data da estadia deles em Funar  e os antepassados da casa real de Manehi’ak  e de Maneka’olik que nasceram de uma plantação que fica em Hahilihun(Ou pode escrever também como Hahilihun). Dei a conhecer também outro clã que os seus antepassados nasceram de terra e que eram muito pequenitos.  O clã de Bubai. Os antepassados das casas reais de Manehi’ak e Maneka’olik e também de Bubai foram os primeiros habitantes desta zona.

- O mais importante para seja quem for deve primeiro pedir autorização aos meus tios, anciões das casas sagradas. Todas as actividades ficam dependentes da autorização deles.

- Ainda tem muitos outros ritos, costumes e culturas interessantes para descobrir e para ser trabalhados por antropólogos e arqueólogos. 

- Eu escrevo este artigo em inspiração da descoberta do homo floresiensis na ilha vizinha de Flores. 


mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
May 2013
Sun
Mon
Tue
Wed
Thu
Fri
Sat

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
28
29
30
31


comentários recentes
Olá, fico muito feliz por fazer parte daqueles que...
Dr. Hercus,karik bele buka ha'u iha facebook Barba...
Sim Dra. Barbara Oliveira. Ha'u iha interese no in...
Boa noite Maun Hercus,Espera hotu di'ak. Artigu ka...
Muito bem, excelente artigo, muito bem escrito, ta...
Posts mais comentados
blogs SAPO