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publicado por Hercus Santos at 10:49 pm

Caro leitor, baseando no conto de Sophia de Melo Breyner Andressen intitulado "O Anjo de Timor" e também baseando nos seus três contos sobre três reis magoas então eu penso se Jesus nascesse em Timor como isso seria? Foi assim eu resolvi escrever este conto. Boas leituras!

 

 

Muito, muito antigamente, na terra de Timor, havia um “dadolin” que tinha falado, de geração em geração, sobre um rei poderoso que iria nascer para governar e salvar todos os homens de qualquer tipo de escravidão. Eis o dadolin:

 

Um rei das Alturas

Todo poderoso e sagrado

Santo é o seu nome

É rei de todos os tempos

Faz-se homem

E que vai descer para governar

Que vai descer para salvar todos os povos

De qualquer tipo de sofrimentos.

 

Vinde a ele

Todos os que estais fatigados e oprimidos

Ele vos aliviará.

 

Quando este rei vier, não haverá mais ninguém que seja escravizado. Todos e cada homem restaurar-se á verdadeiramente na dignidade humana. Não sabemos quem é que começou a contar ou quem é que criou o dadolin. Disseram que este dadolin já existia quando começou a criação do mundo e espalhou-se por todo o território. Muita gente não dava nenhuma importância a este dadolin. Sobretudo os reis que gostavam muito de poder. Eles não queriam que os seus poderes ou as suas boas posições na sociedade fossem substituídos por alguém. Por isso, nos seus reinos, eles proibiam toda a gente de falar sobre o dadolin. Eles até podiam matar os que estivessem contra.

 

O povo estava em silêncio e quase se perdeu a vontade de procurar saber novidades sobre o novo rei. Para o povo, mais valia pensar em como é que ia sustentar a vida, em como é que ia encher a barriga do que pensar numa coisa que o levaria para a morte.

 

Mesmo alguns reis ou alguns homens não ligavam ao dadolin, mas havia três reis sábios que estavam a tentar saber o sentido do dadolin. Os três reis sábios eram os reis de Loro Monu, Rai-Klaran, e de Loro Sa’e.

 

Os três reis mandaram homem seus, em quem tinham mais confiança, em segredo percorrer o território de Timor para procurar saber onde e quando é que este grande rei iria nascer. Depois de um ano, os homens de confiança regressaram para os seus reis sem nenhuma novidade. Os três reis mandaram outra vez cada um dos seus melhores guerrilheiros com a ideia de que os guerrilheiros já tinham experiência de guerra e eles tinham capacidade para procurar uma informação correcta e rápida. Antes de os guerrilheiros partirem dos sues reinos, eles fizeram uma cerimonia de “biru”, receberam “malus” dos seus “uma lisan”, “huta” nas suas testas com o significado de que eles teriam sucesso na sua missão. Eles procuraram de lugar para lugar, subindo e descendo a montanha, passaram os rios, mas não encontraram nada. Os três guerrilheiros regressaram para cada reino sem nenhuma notícia.

 

Num suco que ficava longe da cidade, Morava um velho “Lia-na’in”. Ele tinha ouvido que havia três reis que estavam á procura de notícias do novo rei, algo que estava escrito no dadolin. O lia-na’in não era qualquer lia-na’in. Um lia-na’in especial. Disseram que a sua geração era a do senhor da estrela, da lua, da pedra, da natureza, e seria o senhor aparecido. Por isso ele tinha um grande poder. Toda a gente sabia bem que o velho lia-na’in era uma pessoa sagrada.

 

Ele mandou os três homens para a casa dos três reis para informar de que ele estava disposto para ajudar. Os três reis ao ouvirem que havia um homem que queria ajudá-los a saberem coisas sobre o dadolin, eles ficaram muito alegres.

 

Apesar de estudarem muito, de lerem vários  livros, eles não descobriam o sentido do dadolin, não havia nenhuma explicação nos livros.

 

Os três reis chegaram à conclusão de que a inteligência humana não basta para descobrir o segredo da vida. A experiência da vida é que pode ensinar muitas coisas. O lia-na’in tinham muita idade. Ele sabia muitas coisas. Por isso é que eles deixaram os seus reinos para ir encontrar o lia-na’in. O lia-na’in recebeu-os muito bem. Pediu-lhes para se sentarem perto da fogueira onde estavam as coisas sagradas. Depois o lia-na’in pôs “bua malus” em cima da pedra sagrada, voltou o olhar para cada um deles e perguntou:

 

- Os senhores são reis, porque é que ainda querem saber sobre o novo rei?

 

Respondeu o rei do Loro Monu:

 

- É verdade. Sou liurai do Loro Monu. No meu reino há uma gripe que ataca toda a população. Como rei eu tenho a obrigação de cuidar da população.

 

Disse o rei da Rai Klaran:

 

- No meu reino, morrem muitas pessoas. O povo vai desaparecer.

 

Queixou-se o rei Loro Sa’e:

 

- As almas lançaram uma maldição ao meu reino. A maldição é quando o povo chora e o som não sai. Gritam, choram mas a voz não se ouve.

 

O velho lia-na’in estava muito assustado a ouvir as dificuldades dos três reis. Respirou profundamente e disse-lhes:

 

- Bom. As questões dos senhores são muito complicadas. Esperamos que haja possibilidades de encontrar as soluções. Recebam o malus e bua, mastiguem e depois dêem-mos para eu ver.

 

Os três reis mastigaram bua e malus e depois entregaram o “mama” para o lia-na’in. o velho lia-na’in verificou, com muito atenção, o mama  cada um. Depois de verificar o mama, ele pô-lo em cima da pedra sagrada e disse:

- Vi os vossos três mamas que indicam o mesmo sinal. Isto é, uma estrela vai indicar-vos o caminho para possais encontrar o novo rei. É verdade que só este rei vai libertar os homens de todos os sofrimentos. E ele pode também ajudar os vossos reinos. Os mamas são redondos mas esta parte dos mamas dos senhores – ele indicou para os mamas – sobressai. Isso é um sinal de que quando os senhores partirem de casa, vão encontrar imediatamente a estrela. Vejam! O velho lia-na’in põe os mamas na sua palma e disse:

 

- Três mamas da mesma cor. Cor vermelha clara. Isso significa que  a estrela não é uma estrela qualquer. A estrela, que vai guiar os senhores para encontrar o novo rei, é uma estrela mais brilhante do que as outras. Sigam esta estrela, não podem seguir outra – aconselhou aos três reis.

 

- Levam também os meus presentes para oferecer ao menino. O velho lia-na’in deu um “tais mane”, uma parte de sândalo muito perfumado e um “belak” de ouro.

 

Depois de receberem os presentes do senhor, nesta mesma noite, os três reis sábios regressaram aos seus reinos. No meio do caminho, assustaram-se muito por verem uma estrela mais brilhante do que milhares de estrelas no céu. Eles pensaram logo nas palavras do velho lia-na’in. eles não perguntaram nada e só seguiram a estrela.

 

Chegaram a uma colina, no curral dos cabritos, a estela desapareceu. Perguntaram-se entre si porque é que esta estrela desaparecera nesse lugar atrasado e pobre. Será que um grande rei ia nascer fora da cidade? Não é no palácio? De repente ouviram a voz do menino chorando. Assustaram-se mais ainda e ficaram com muito medo de que talvez esta voz fosse a foz das almas ou dos fantasmas. Com muita atenção, eles aproximaram-se desta voz.

 

Entre grandes ervas, dos ramos das árvores que os escondiam, e não muito perto, mas também não muito longe, eles puderam ver claramente um homem que estava a tapar um menino com fraldas de pano muito Delgado, numa área fria como aquela, e o homem pôs o menino numa manjedoura. O menino continuava a chorar. Talvez por causa do frio ou para ele já estava previsto que a vida humana não o favoreceria. Um dos três reis que recebeu o tais-mane teve compaixão daquele menino. Por isso ele pegou no tais-mane e aproximou-se para dá-lo ao pai do menino.

 

- Tape- o com este tais-mane.

 

O pai do menino assustou-se muito. Tirou a “katana” aproximou-se da sua mulher e do seu filho.

 

- O que é que o senhor quer? Disse o homem com a katana na mão, preparando para algum perigo. Os dois reis que estavam a esconder-se, saíram do esconderijo e responderam:

- Viemos adorá-lo. Depois de responderem, os três ajoelharam-se e ofereceram os presentes: um tais-mane, uma parte do sândalo muito perfumado, e um belak de ouro.

 

- Adorá-lo? O pai do menino estava com dúvida repetindo a frase. – Não nos fazem mal. Eu conheço muito bem os senhores. Os senhores são reis.

 

- É verdade. Nós já vimos a estrela do seu menino. De acordo com um lia-na’in, que nos disse que quando víssemos uma estrela mais brilhante do que as outras, significaria que esta estrela ia guiar-nos para um rei que vem libertar-nos de qualquer tipo de escravidão. Ele vai ajudar-nos e também aos nosso reinos. O nosso reino é deste mundo mas o seu reino não é deste mundo. Ele é o caminho, a verdade, a vida e o verdadeiro rei. Por isso viemos adorá-lo.

 

 

 

 

Dadolin                : Poema tradicional de Timor.

Lia-na’in               : Ancião que tem função como dirigir a oração em “uma-lulik”.

Biru                      : Amuleto.

Malus                   : Folhas de bétel.

Bua                      : Areca.

Huta                     : Cuspir “mama” na testa de uma pessoa. Feita pelo um ancião.

Mama                   : Massa que se faz na boca mastigando folhas de bétel, um pedaço de areca e um pouco de cal.

Tais-mane            : Pano de fábrico tradicional para o homem.

Belak                    : Medalhão timorense.

Katana                 : Espada.

Uma-Lisan            : Casa sagrada (casa onde se guardam os objectos sagrados).

Liurai                    : Rei

Loro Monu            : Parte oriental da Ilha.

Rai Klaran             : Parte central da ilha.

Loro Sae               : Parte ocidental da Ilha.


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